Ética: O Médico e a Mídia – Fernando Araújo – 1997

    Ética: O Médico e a Mídia – Fernando Araújo

    Trabalho apresentado pelo Acadêmico Fernando Araújo ao participar, em nome da Academia Mineira de Medicina, no congresso CIRURGIA 97 – Fronteiras da Cirurgia Geral e Especialidades. A Gastroenterologia e seus 50 Anos em Minas Gerais – como relator no Colóquio Universitário: O médico e a mídia. Realizado nos dias 1 a 3 de maio de 1997 na Faculdade de Medicina da UFMG.

    A mídia brasileira julga-se no direito de acusar, julgar e condenar qualquer pessoa, inclusive os médicos. Seus profissionais são, na maioria, despreparados para comentarem assuntos relativos à saúde e, mesmo assim, por se julgarem informados dos acontecimentos de todas as áreas do conhecimento humano, arvoram-se em juizes de todas as profissões, principalmente da medicina. As chocantes imagens de colegas nas páginas policiais, muitas vezes algemados e tratados como marginais, têm sido freqüentes, protagonizando espetáculos, de gosto duvidoso, mas que geram audiência. O próprio Governo Federal lança constantemente na mídia a imagem de médicos considerados corruptos e desonestos no trato da administração pública, sem citar seus nomes, talvez para justificar a retenção de verbas. Procuram levar ao público a impressão de que o médico é um profissional mercenário, negligente e pouco qualificado. Não levam em consideração que ele dedica sua vida à profissão, atuando como médico, trabalhando como médico e pensando como médico. Lançam ao público a noção errada de que a medicina é uma ciência exata e que as complicações e os erros sempre são decorrentes de falhas humanas. Não levam em consideração que a prática da medicina apresenta riscos que não dependem da capacitação do profissional. Existe o erro médico de fato, que é evitável e decorre de imprudência, negligência ou imperícia, devendo, nestes casos, o profissional ser denunciado ao órgão competente, que é o Conselho Regional de Medicina e, se for o caso, ser encaminhado à Justiça Pública. Mas existe também o erro médico de direito, que é imponderável, inevitável e independe da capacitação do profissional. Devemos reconhecer a existência daqueles que infringem os códigos da moral e da ética, mas seus erros não podem ser generalizados já que a imensa maioria cumpre com todos os seus deveres. A mídia necessita ser equipada com profissionais adequados, bem preparados em assuntos de saúde e capazes de informar corretamente ao público, com bom senso e equilíbrio. Deveria apontar as péssimas condições dos ambientes de trabalho do médico; a caótica Assistência Pública à saúde; mostrar que os salários pagos aos profissionais de saúde estão entre os menores de todas as classes liberais e cada vez mais achatados; que o curso de medicina é o mais longo de todos, com 6 anos de duração e mais 2 a 5 anos de Residência para especialização; que o médico continua seu aprimoramento pelo resto da vida, em Congressos, Cursos e Estágios pagos; que o médico é o profissional que mais paga impostos, já que o fisco julga que todos são ricos; lembrar que na hora das doenças graves, o primeiro grito é: chamem um médico; e que, apesar de tudo isto, continua o médico a perder suas noites de sono e dias de lazer no atendimento aos pacientes, na maioria desprovidos de recursos.
    O que realmente queremos da mídia é a informação desapaixonada, sem mentiras ou deturpações capazes de iludir milhares de pessoas e destruir toda a vida de um profissional honesto. Reconhecemos que o médico já não detém aquele endeusamento antigo, que deixou de freqüentar a sociedade, que empobreceu e, produzido em série, perdeu a individualidade, mas, entre todos os profissionais liberais, ainda é o único que se sacrifica pelo seu semelhante e, por isto, merece respeito.
    Devemos começar a trabalhar para melhorar a imagem do médico na mídia, fortalecendo nossas entidades de classe e valorizando nossos colegas. Devemos reabrir nossa casa de trabalho, o hospital, a todos os médicos devidamente registrados no Conselho Regional de Medicina. As modernas normas das portarias hospitalares, impedindo o livre acesso do médico, a não ser nos horários de visitas, fere sua soberania e enfraquece sua imagem junto ao paciente. Lembramos que qualquer advogado tem livre trânsito no seu local de trabalho, o fórum, que os militares entram livremente em seus quartéis etc.

    Fernando Araújo
    Presidente da Academia Mineira de Medicina